1. Introdução
Na Argentina, obter um CUIT — Clave Única de Identificación Tributaria — é uma das etapas mais importantes para qualquer estrangeiro que pretenda desenvolver atividades comerciais, financeiras ou de investimento de maneira formal e sustentável.
Embora muitas pessoas acreditem que o CUIT sirva apenas para questões tributárias, na prática ele funciona como a verdadeira “identidade econômica” dentro do sistema argentino. Sem CUIT, grande parte das operações comerciais relevantes simplesmente não pode ser realizada.
Além disso, do ponto de vista migratório e patrimonial, possuir atividades econômicas reais na Argentina constitui um antecedente muito positivo para futuras solicitações de residência ou cidadania — incluindo o novo regime de cidadania argentina por investimento estabelecido pelo Decreto nº 524/2025 —, especialmente quando existe coerência entre o perfil profissional do investidor e as atividades desenvolvidas localmente.
2. O CUIT não implica automaticamente residência fiscal na Argentina
Um dos erros mais frequentes entre investidores estrangeiros consiste em presumir que a obtenção do CUIT implica, automaticamente, tornar-se residente fiscal argentino. Juridicamente, essa interpretação está incorreta.
Nos termos do artigo 119 da Lei do Imposto de Renda argentina — Lei nº 20.628, texto consolidado de 2019, as pessoas físicas estrangeiras adquirem residência fiscal argentina principalmente quando:
- obtêm residência permanente de acordo com a legislação migratória argentina; ou
- permanecem na Argentina durante doze meses sob autorizações migratórias temporárias, computando-se determinadas ausências temporárias conforme a regulamentação aplicável.
A legislação também prevê exceções para pessoas cuja permanência no país decorra de atividades transitórias, empresariais, acadêmicas, médicas ou científicas, evitando, assim, que sejam automaticamente consideradas residentes fiscais.
Adicionalmente, devem ser considerados os Acordos para Evitar a Dupla Tributação celebrados pela Argentina, incluindo o acordo vigente com a China desde 2021, que contém regras específicas para solucionar conflitos de residência fiscal entre ambas as jurisdições.
Enquanto essas hipóteses não estiverem configuradas, um estrangeiro pode perfeitamente possuir CUIT apenas como instrumento de identificação econômica e tributária para operar formalmente na Argentina, sem passar a tributar automaticamente seus rendimentos de fonte estrangeira.
Em termos práticos, atualmente o CUIT funciona como uma verdadeira identificação econômica e digital, indispensável para interagir com o sistema financeiro, comercial e regulatório argentino.
3. O CUIT para estrangeiros não residentes
Na prática atual, a ARCA — Agencia de Recaudación y Control Aduanero, órgão criado pelo Decreto nº 953/2024 em substituição à AFIP, está concedendo CUIT a estrangeiros não residentes. No entanto, o procedimento nem sempre é simples ou completamente automático.
Normalmente, no caso de pessoas físicas ou sociedades estrangeiras, será necessário contar com:
- representação local por meio de procurador ou administrador com domicílio constituído na Argentina;
- documentação apostilada conforme a Convenção da Haia;
- traduções realizadas por tradutor público juramentado e devidamente registrado;
- comprovação de domicílio fiscal;
- cumprimento de requisitos regulatórios adicionais, conforme a atividade desenvolvida.
Dependendo do caso, também podem ocorrer atrasos administrativos relevantes, especialmente quando estiverem envolvidas:
- sociedades estrangeiras registradas nos termos do artigo 123 da Lei Geral de Sociedades argentina;
- estruturas internacionais complexas;
- atividades financeiras reguladas;
- aberturas de contas vinculadas ao sistema bancário e ao mercado de capitais.
Por esse motivo, embora muitos procedimentos possam ser organizados parcialmente a distância, na prática costuma ser indispensável trabalhar com advogados, contadores e representantes locais com experiência no atendimento de clientes internacionais.
4. O CUIT como chave de acesso ao sistema econômico argentino
Atualmente, o CUIT é indispensável para diversas atividades econômicas e financeiras. Em termos práticos, funciona como a porta de entrada formal para o sistema econômico argentino.
Sem CUIT, normalmente não é possível:
- constituir sociedades comerciais;
- abrir contas bancárias;
- abrir contas de investimento;
- comprar ações ou títulos argentinos;
- realizar investimentos imobiliários;
- emitir notas fiscais;
- registrar atividades tributárias;
- operar no comércio eletrônico;
- importar ou exportar bens;
- realizar procedimentos perante a ARCA, a IGJ, a CNV ou o BCRA;
- interagir plenamente com o sistema financeiro argentino.
Por esse motivo, até mesmo investidores que ainda não pretendem se mudar para a Argentina costumam iniciar primeiro o processo de obtenção do CUIT e a estruturação de sua presença patrimonial local.
5. Constituir uma sociedade comercial na Argentina
A constituição de uma sociedade local — especialmente uma SAS, Sociedad por Acciones Simplificada, ou uma SRL, Sociedad de Responsabilidad Limitada — é atualmente um dos instrumentos mais utilizados por empresários estrangeiros para iniciar operações na Argentina sem a necessidade de residir permanentemente no país.
Por meio de uma sociedade argentina, é possível:
- operar no comércio eletrônico;
- abrir lojas locais no Mercado Livre;
- importar ou exportar produtos;
- desenvolver atividades gastronômicas;
- investir em imóveis urbanos ou rurais;
- prestar serviços profissionais;
- participar de projetos agrícolas, tecnológicos, minerários ou energéticos.
Entretanto, para que a sociedade funcione corretamente, o CUIT é indispensável.
Além disso, deve-se diferenciar claramente entre:
- o CUIT da sociedade; e
- o CUIT pessoal dos sócios, representantes ou administradores.
Em muitos casos, ambos serão necessários para concluir corretamente os registros tributários, bancários e regulatórios.
Na prática, muitos atrasos societários na Argentina não estão relacionados à constituição da empresa propriamente dita, mas justamente à obtenção do CUIT dos sócios estrangeiros, administradores ou representantes legais.
Antecipar corretamente esses prazos costuma evitar bloqueios posteriores na abertura de contas bancárias, nos registros regulatórios e nas operações comerciais.
6. Abrir uma conta de investimento para comprar ações e títulos argentinos
Outra alternativa amplamente utilizada por investidores internacionais consiste em abrir uma conta de investimento na Argentina para negociar:
- ações argentinas listadas na BYMA;
- títulos soberanos;
- obrigações negociáveis corporativas;
- fundos de investimento;
- instrumentos denominados ou vinculados ao dólar;
- CEDEARs;
- outros ativos relacionados ao mercado de capitais argentino.
A Argentina continua oferecendo determinados instrumentos financeiros com rendimentos em dólares significativamente superiores à média internacional. No entanto, esses retornos estão inseparavelmente associados ao risco soberano argentino, à volatilidade macroeconômica e à complexidade regulatória local.
Por esse motivo, cada investimento deve ser analisado individualmente, considerando:
- horizonte temporal;
- tolerância ao risco;
- diversificação patrimonial;
- situação tributária internacional;
- objetivos migratórios ou patrimoniais do investidor.
Para abrir formalmente uma conta de investimento local, a maioria das corretoras e dos Agentes de Liquidação e Compensação — ALyCs — autorizados pela Comissão Nacional de Valores argentina solicitará:
- CUIT argentino vigente;
- documentação patrimonial atualizada;
- comprovação documental da origem dos recursos;
- informações tributárias internacionais, incluindo CRS e FATCA, quando aplicáveis;
- cumprimento das normas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
Dependendo da instituição financeira, alguns procedimentos poderão ser realizados parcialmente a distância, enquanto outros exigirão:
- procurações específicas;
- validações biométricas;
- entrevistas de compliance;
- presença física.
Adicionalmente, deve-se considerar que as regulamentações cambiais do Banco Central da República Argentina — BCRA — e as políticas relacionadas às transferências internacionais e às operações em moeda estrangeira podem sofrer alterações frequentes, afetando os procedimentos bancários e financeiros.
7. Um instrumento estratégico para investidores chineses
No caso de cidadãos chineses, esse tipo de estrutura pode ser especialmente útil sob a perspectiva patrimonial e cambial internacional.
Atualmente, muitos investidores chineses utilizam o limite anual para aquisição de moeda estrangeira autorizado pela SAFE — Administração Estatal de Câmbio da China (国家外汇管理局), de aproximadamente USD 50.000 por pessoa física ao ano, para começar a construir gradualmente um patrimônio fora da China continental, dentro do marco legal vigente.
Nesse contexto, abrir uma conta de investimento na Argentina pode permitir:
- acumular capital internacionalmente de maneira gradual;
- desenvolver um histórico financeiro fora da China;
- construir antecedentes patrimoniais verificáveis;
- preparar-se antecipadamente para futuras solicitações de residência como rentista, investidor ou de cidadania por investimento.
Do ponto de vista prático, muitas vezes é mais eficiente começar pela estruturação patrimonial e financeira internacional e, somente posteriormente, avançar com a solicitação migratória formal.
A coerência documental construída durante essa etapa prévia pode fortalecer significativamente futuros processos migratórios e patrimoniais.
Naturalmente, esse tipo de planejamento deve ser realizado sempre em conformidade com:
- as normas cambiais aplicáveis;
- as regulamentações bancárias internacionais;
- as obrigações tributárias correspondentes;
- as políticas de prevenção à lavagem de dinheiro e de identificação de clientes — AML/KYC;
- as normas de compliance de cada jurisdição envolvida.
8. Atividades que podem ser desenvolvidas parcialmente a distância
Uma vantagem importante do sistema argentino é que muitas dessas atividades podem ser organizadas parcialmente a distância, especialmente quando o investidor trabalha com advogados, contadores e representantes locais de maneira coordenada.
Entretanto, também é importante manter expectativas realistas.
A Argentina continua sendo um país com:
- elevada burocracia administrativa;
- frequentes mudanças regulatórias;
- complexidade cambial estrutural;
- inflação historicamente elevada;
- procedimentos bancários que podem variar consideravelmente de acordo com a instituição envolvida.
Por isso, embora atualmente seja possível avançar remotamente em processos de:
- constituição de sociedades;
- obtenção de CUIT;
- estruturação patrimonial;
- preparação de investimentos;
- determinadas aberturas financeiras;
muitos casos ainda exigirão:
- intensa coordenação documental;
- outorga de procurações específicas;
- validações adicionais;
- presença física em determinadas etapas críticas.
9. Um antecedente favorável para futuras solicitações migratórias
Do ponto de vista migratório, as autoridades argentinas costumam avaliar positivamente os perfis que conseguem demonstrar:
- atividade econômica real e verificável;
- investimentos genuínos e rastreáveis;
- experiência empresarial coerente;
- cumprimento tributário contínuo;
- vínculos estáveis com o país.
Por esse motivo, constituir uma empresa local ou desenvolver investimentos financeiros formais não possui apenas utilidade comercial ou patrimonial, mas também pode transformar-se em um instrumento estratégico dentro de um futuro planejamento migratório ou de cidadania argentina por investimento.
Em muitos casos, o verdadeiro fator relevante não é apenas o montante investido, mas a credibilidade integral do projeto e a coerência entre a trajetória do investidor e as atividades desenvolvidas na Argentina.
Por esse motivo, iniciar antecipadamente a organização patrimonial, societária e tributária costuma gerar vantagens decisivas quando, posteriormente, é apresentada uma solicitação migratória formal.
As informações contidas neste artigo são fornecidas exclusivamente para fins informativos e não constituem aconselhamento jurídico, tributário, financeiro ou de investimentos. A legislação argentina — especialmente em matéria tributária, cambial, bancária, societária e migratória — é complexa e está sujeita a alterações frequentes.
O êxito das operações descritas depende de uma análise individualizada de cada caso concreto.
A obtenção do CUIT, a constituição de sociedades ou a abertura de contas de investimento não garantem, por si só, a aprovação de solicitações migratórias ou de cidadania, que continuam sujeitas à avaliação exclusiva das autoridades competentes, de acordo com a legislação vigente.